Existe uma espécie de contradição no ato de criar. Um artista dedica meses, e às vezes anos, a uma obra sabendo que, eventualmente, precisará abandoná-la.
Na música, muitas vezes um album é lançado, as pessoas escutam, discutem, criam memórias ao redor dele e, pouco a pouco, seguem para outra referência. O que um dia ocupou absolutamente tudo se transforma em registro de um tempo que já passou. Em Music, Fashion, Film, lançado nesta sexta-feira (24), Charli xcx parece bastante confortável com essa ideia.
Na noite de ontem, participei no MIS, em São Paulo, de uma das sessões de Music, Fashion, Film: The Listening Events. O projeto levou o álbum a cinemas ao redor do mundo acompanhado de uma peça audiovisual construída a partir de clipes, bastidores, registros de estúdio e imagens captadas por amigos e colaboradores próximos da cantora. As duas sessões gratuitas apresentaram o trabalho horas antes de sua chegada às plataformas.
Mais do que explicar as onze faixas, o filme dirigido por Charli ao lado de Aidan Zamiri ajuda a compreender a filosofia por trás delas. É menos um documentário tradicional sobre a criação de um álbum e mais um registro de um momento: Aqui vemos Charli viajando, gravando, conversando entre amigos, fazendo música e, principalmente, se divertindo ao lado das pessoas com quem escolheu dividir esse período da vida.
É justamente nesse recorte que Music, Fashion, Film foi concebido.
Depois de Brat, a liberdade de não precisar se superar
Era praticamente impossível imaginar o que Charli xcx faria depois de Brat sem se questionar: como superar um fenômeno daquele tamanho? A resposta da artista parece ter sido simplesmente não tentar.
Lançado em 2024, Brat ultrapassou os limites de um álbum para se transformar em fenômeno cultural. O verde da capa ganhou as ruas, a linguagem visual foi apropriada pela moda e pela internet e as músicas extrapolaram o universo dos fãs de Charli. Em determinado momento, Brat deixou de ser apenas um disco e passou a funcionar como uma linguagem própria Mas Charli parece ter entendido antes de todo mundo que tentar reproduzir aquele momento seria justamente a maneira mais rápida de esvaziá-lo.
Antes mesmo de Music, Fashion, Film, ela já havia dado sinais bastante claros de que não pretendia permanecer ali. O primeiro veio com The Moment, mockumentary da A24 dirigido por Aidan Zamiri e desenvolvido a partir de uma ideia original da própria Charli. Em vez de continuar alimentando a mitologia de Brat, o filme fez justamente o contrário: transformou os bastidores do fenômeno em sátira. Nele, Charli interpreta uma versão ficcional de si mesma enquanto tenta navegar pelo sucesso repentino, pelas expectativas da indústria e pela transformação de uma ideia originalmente espontânea em uma máquina comercial cada vez maior. Se Brat criou um fenômeno, The Moment parecia interessado em desmontá-lo.
Também este ano, Charli lançou Wuthering Heights, projeto criado para acompanhar a adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, dirigida por Emerald Fennell e estrelada por Margot Robbie e Jacob Elordi. O convite inicial era para contribuir com uma música; Charli acabou construindo um trabalho inteiro ao redor daquele universo. São 12 faixas mergulhadas numa atmosfera que ela própria descreveu como bruta, selvagem, sexual, gótica e essencialmente britânica.
Em vez de transformar a própria vida e personalidade em matéria-prima, Charli teve a oportunidade de desaparecer dentro do universo de outra pessoa. Saiu da boate, abandonou o verde fluorescente e entrou no romantismo gótico de Emily Brontë. Depois de passar meses no centro da cultura pop, criar a partir de uma personagem e de uma narrativa que não eram suas parece ter funcionado como uma espécie de liberdade criativa.
Music, Fashion, Film segue praticamente na direção contrária de tudo aquilo que transformou Brat em um fenômeno. Se aquele disco dependia de uma identidade visual imediatamente reconhecível, de uma campanha capaz de ocupar o espaço público e de músicas que se transformaram em acontecimentos culturais, aqui existe uma recusa consciente à ideia de que cada lançamento precisa ser um evento.
Produzido principalmente ao lado de A.G. Cook e Finn Keane, o álbum tem onze faixas e pouco mais de 30 minutos. Musicalmente, guitarras distorcidas convivem com sintetizadores, estruturas eletrônicas e melodias pop, criando um trabalho que flerta com o rock sem jamais realmente abandonar o universo construído por Charli ao longo da carreira.
Não existe aqui a sensação de alguém tentando produzir “o álbum da carreira”. E isso é libertador. Music, Fashion, Film parece existir porque Charli queria estar em uma sala fazendo música com pessoas de quem gosta. E às vezes, só isso basta.
Música. Moda. Cinema.
O título pode parecer quase excessivamente literal, mas funciona como uma declaração de interesses.
Música, moda e cinema são três linguagens que passaram a ocupar cada vez mais espaço na vida artística de Charli, e neste álbum, deixam de existir separadamente.
A própria capa transforma essa ideia em imagem: John Cale, Marc Jacobs e Martin Scorsese representam, respectivamente, música, moda e cinema. Charli sequer aparece. A fotografia é de Aidan Zamiri, colaborador recorrente e diretor de The Moment. É uma escolha curiosamente coerente para uma artista saindo de uma era tão centrada na própria persona. Aqui, Charli parece menos interessada em ocupar o centro da imagem e mais fascinada pelas coisas e pessoas que a inspiram.
No documentário apresentado aos fãs, me parece que essa idéia foi reforçada. Há algo deliberadamente efêmero na maneira como tudo é registrado. São registros de bastidores de gravações, viagens, estúdios, sets e conversas aparecem como pequenos fragmentos de memória. Não existe a preocupação de transformar cada momento em algo icônico ou um trecho a ser compartilhado nas redes sociais, são apenas lembranças. E lembranças, por definição, são incompletas.
Anti-marketing ainda é uma forma de marketing
Essa filosofia também aparece na divulgação. Depois de uma campanha gigantesca como a de Brat, Charli passou a pregar uma espécie de “ filosofia anti-marketing” para seu novo trabalho: cinemas independentes, apresentações menores, eventos direcionados aos fãs e uma comunicação que tenta diminuir a distância entre artista e público. A própria turnê de audições levou o disco a 25 cidades antes do lançamento.
É claro que existe uma contradição curiosa nisso. Anti-marketing ainda é uma forma marketing. E Charli sabe disso. Mas talvez a diferença esteja menos na ausência de estratégia e mais na sensação de controle.
Um dos momentos mais reveladores do filme acontece quando a campanha, aparentemente já definida, precisa mudar porque Charli decide que “Wink Wink” também deveria ganhar espaço naquele momento. O improviso vira parte da estratégia.
Isso combina perfeitamente com uma artista que passou boa parte da carreira negociando sua identidade com as estruturas da indústria pop e que agora, aos 33 anos, parece interessada em controlar não apenas o que cria, mas como aquilo chega até nós. A proximidade com os fãs deixa de ser apenas ferramenta promocional e passa a integrar a própria estética do projeto.
Não é coincidência que Music, Fashion, Film tenha sido apresentado primeiro em salas de cinema para grupos relativamente pequenos de pessoas. A mensagem parece ser: eu fiz uma coisa. Quero mostrar para vocês. Mas sem a promessa de mudar a cultura novamente.
O registro momentâneo
Apesar do curto tempo de aproximadamente 30 minutos, é possivel destacar alguns pontos altos ao longo das 11 faixas .
“Camera”, talvez o melhor dos singles e um dos grandes momentos do álbum, encontra Charli em território mais introspectivo. A produção contida contrasta com a escala cinematográfica do vídeo dirigido por Aidan Zamiri e estrelado por Vincent Cassel, no qual a própria cantora aparece ocupando simbolicamente a cadeira de diretora.
É uma imagem perfeita para esta fase: Charli dentro do filme, mas também tentando controlar aquilo que estamos vendo.
“2007”, por outro lado, parece inicialmente uma das faixas mais despretensiosas do disco. Há algo quase banal em sua relação com a linguagem de vídeos curtos e fragmentos digitais, mas a produção transforma essa aparente frivolidade em uma das faixas mais divertidas do conjunto. As guitarras e a construção melódica carregam um espírito de indie rock britânico que ajuda a ampliar o vocabulário do álbum sem transformá-lo no suposto “disco de rock” que muita gente imaginou que Charli estivesse preparando.
“I’m Afraid” reduz ainda mais a velocidade. É uma Charli menos performática, confrontando inseguranças e mecanismos de defesa sem precisar convertê-los imediatamente em uma explosão de pista.
Mas, na minha opinião, é em “Magic Metal Montana” o ápice desse projeto . A música funciona quase como uma carta de carinho para A.G. Cook, parceiro fundamental na construção da linguagem musical de Charli durante boa parte de sua carreira. Em um álbum obcecado pelas relações entre criação e amizade, a faixa transforma colaboração em afeto.
Musicalmente, também é um dos pontos mais completos do disco. Existe delicadeza sem sentimentalismo excessivo, e a produção parece interessada menos em impressionar do que em preservar a intimidade daquela relação. É talvez a melhor representação do espírito de Music, Fashion, Film: fazer música como uma maneira de estar perto das pessoas.
Ninguém dura para sempre
É na ultima faixa, “No One Lasts Forever”, onde todo o conceito construido ao longo do album passa a fazzer total sentido.
Com quase seis minutos, traz a participação do cineasta canadense David Cronenberg — diretor de obras como A Mosca, Crash e Videodrome — e transforma aquilo que parecia apenas um álbum sobre interesses artísticos em uma reflexão sobre permanência.
No filme, Cronenberg fala sobre a estranha relação que desenvolveu com a própria obra ao longo das décadas. Pessoas o abordam lembrando detalhes, cenas e trabalhos dos quais ele próprio já não guarda a mesma memória. Existe algo profundamente bonito nessa ideia. Depois que uma obra é lançada, ela começa lentamente a deixar de pertencer a quem a criou. Outras pessoas passam a carregá-la.
Elas associam músicas a términos, viagens, amizades, festas, versões antigas de si mesmas. O artista continua vivendo e criando enquanto aquela obra permanece congelada no momento em que foi entregue.
É impossível ouvir isso sem pensar em Brat. Talvez Brat já não pertença realmente a Charli xcx. Pertence às pessoas que pintaram tudo de verde. Às festas. Aos memes. À política. Aos fãs. Às pessoas que descobriram alguma liberdade pessoal dentro daquele universo. Charli pode ter criado Brat. Mas não pode mais controlar aquilo em que Brat se transformou. E talvez Music, Fashion, Film seja justamente sobre aceitar isso.
Se a era Brat parecia querer ocupar o mundo. Music, Fashion, Film parece perfeitamente confortável em ocupá-lo apenas por algum tempo. E existe uma maturidade nessa escolha. Charli xcx passou boa parte da carreira tentando chegar ao centro da cultura pop. Quando finalmente conseguiu, descobriu talvez a coisa mais libertadora que poderia aprender: não existe obrigação de permanecer ali.
A Música passa. A Moda passa. Os Filmes deixam os cinemas. E artistas também morrem. Mas isso não torna aquilo que produziram menos importante enquanto existiu.
Music, Fashion, Film não parece interessado em ser imortal. É um registro de Charli xcx aos 33 anos, cercada pelos amigos, fascinada por música, moda e cinema e suficientemente segura para criar sem precisar transformar cada escolha em um manifesto geracional. Talvez daqui a dez anos este não seja o primeiro álbum citado quando alguém falar sobre sua carreira. Talvez algumas dessas músicas desapareçam dos setlists. Talvez até Charli esqueça detalhes de como elas foram feitas.
E tudo bem.
Porque talvez a maior liberdade que um artista possa conquistar seja entender que uma obra não precisa durar para sempre para ter valido a pena.
NOTA: 8,5/10

