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Jade Baraldo redescobre sua identidade em Não Há Nada Mais Honesto Que Um Sonho

Jade Baraldo redescobre sua identidade em Não Há Nada Mais Honesto Que Um Sonho

Por Luis Felipe Moura · 23 de jul. de 2026
Jade Baraldo redescobre sua identidade em Não Há Nada Mais Honesto Que Um Sonho
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A música tem o poder de fazer o que, muitas vezes, as palavras sozinhas não conseguem. Ela dá voz a sentimentos difíceis de explicar, organiza o caos, preserva memórias e, para muitos artistas, se transforma também em um processo de cura. Foi exatamente isso que aconteceu com Jade Baraldo.

Depois de atravessar um dos períodos mais delicados de sua vida, a cantora encontrou na composição um espaço para ressignificar dores, revisitar feridas e, aos poucos, reconstruir a própria identidade. O resultado desse processo é Não Há Nada Mais Honesto Que Um Sonho, seu segundo álbum de estúdio, lançado sete anos após o disco de estreia.

Mais do que um novo trabalho, o álbum funciona como um retrato íntimo de uma transformação pessoal. Durante conversa com a Glumy, Jade define o projeto como "uma fotografia sonora dos últimos três, quatro anos da minha vida", período marcado por mudanças profundas, tanto na carreira quanto fora dela.

Ao longo da entrevista, fica evidente que Não Há Nada Mais Honesto Que Um Sonho nasceu da dor, mas não permanece nela. Em vez de transformar o sofrimento em espetáculo, Jade faz dele matéria-prima para falar sobre identidade, autonomia e o difícil caminho de voltar para si depois de, em suas próprias palavras, ter se deixado em segundo plano dentro de um relacionamento.

Sete anos depois, uma artista muito diferente

Natural de Brusque, em Santa Catarina, Jade Baraldo ganhou destaque nacional ao participar do The Voice Brasil aos 18 anos, e viralizou logo em seguida com os singles "Brasa" e "Vou Passar", ambos de 2017. Ao longo dos anos, colaborou com artistas como Fresno, passou por uma grande gravadora e experimentou diferentes sonoridades até chegar ao momento mais autoral de sua carreira.

Hoje, aos 27 anos, a artista olha para esse percurso com outra perspectiva. "Quando você é muito jovem, principalmente uma mulher muito jovem no mercado, você acaba sendo muito influenciada. Hoje eu tenho um autoconhecimento muito melhor, principalmente sobre a musicalidade e sobre o que eu quero fazer."

Essa clareza guiou todas as decisões do novo projeto. Jade queria um disco contemporâneo, mas que preservasse instrumentação orgânica, profundidade lírica e uma identidade que não fosse moldada apenas pelas tendências do mercado. "Eu poderia vir com um álbum super comercial, mas escolhi fazer algo que tivesse a minha identidade."

É justamente essa honestidade que dá nome ao projeto. Ao contrário de muitos trabalhos construídos para acompanhar tendências ou fórmulas de mercado, Não Há Nada Mais Honesto Que Um Sonho nasce da decisão de olhar para dentro antes de olhar para fora.

O encontro que transformou o álbum

Embora Não Há Nada Mais Honesto Que Um Sonho seja profundamente autobiográfico, Jade Baraldo transformou o seu processo de cura em uma sessão coletiva, unindo os talentos do duo OS SANTIN e do produtor Saudade.

Conhecidos artisticamente como OS SANTIN,  o duo é formado por Thiago Duarque e Pê Ferreira, assina a produção musical, composição, mixagem e masterização do álbum.

O que começou como uma sessão de composição rapidamente se transformou em uma relação criativa baseada em confiança, escuta e vulnerabilidade. Segundo Thiago, a conexão aconteceu logo no primeiro encontro.

"A gente escreveu uma música extremamente pessoal logo na primeira sessão. A amizade veio antes até da produção. A confiança para cuidar do álbum apareceu depois."

Thiago Duque e Pedro Ferreira (também conhecido como Menino Pê). Eles são um duo musical focado em pop alternativo, R&B e indie pop.

A afinidade foi imediata também para Jade.

Ela conta que encontrou nos irmãos um espaço onde não precisava filtrar sentimentos nem explicar, em excesso, aquilo que estava vivendo. Bastava chegar ao estúdio e transformar emoções em música.

"O jeito que os meninos compõem é muito eu. Foi um match enorme. A gente virou uma grande família. Isso foi um dos maiores presentes que eu ganhei fazendo esse álbum."

A ideia inicial era trabalhar com diferentes produtores ao longo do disco. Mas, conforme as músicas surgiam, a artista percebeu que seria impossível separar aquelas composições das pessoas que estavam ajudando a construí-las. O duo acabou participando não apenas da produção musical, mas também das discussões sobre conceito, narrativa, identidade visual e direção artística do projeto.

Quando criar também é uma forma de sobreviver

Ao longo das onze faixas de Não Há Nada Mais Honesto Que Um Sonho, Jade Baraldo revisita memórias difíceis, traumas e momentos de profunda vulnerabilidade. Curiosamente, voltar a essas dores nunca significou permanecer preso a elas. Pelo contrário: foi justamente o processo de transformá-las em música que permitiu à cantora ressignificar esse período.

"Pra mim foi libertador. Foi justamente canalizar essa energia negativa e colocar na criação. Acabou sendo uma grande terapia, uma grande roda de cura. A palavra é alívio."

A fala ajuda a entender por que o álbum nunca soa preso ao passado. Mesmo quando aborda temas como dependência emocional, autodestruição, perda de identidade e o fim de um relacionamento, as músicas caminham sempre em direção à transformação.

Essa evolução também está presente na própria estrutura do disco. Jade explica que pensou o álbum como uma jornada emocional dividida em diferentes versões de si mesma. No início, surge uma mulher segura, intensa e cheia de certezas. Em seguida, ela dá lugar a alguém consumida pela relação, incapaz de reconhecer a própria identidade. Nos momentos finais, porém, aparece uma versão muito mais vulnerável — e justamente por isso, mais verdadeira.

"O final sou eu voltando pra mim. Quem é a Jade quando ninguém está vendo? Quem é a Jade quando está sozinha no quarto tocando violão? 'Mar de Copa' e 'Sobrenome' vêm muito desse lugar."

É nesse momento que Não Há Nada Mais Honesto Que Um Sonho deixa de ser apenas um álbum sobre o fim de um relacionamento. O disco passa a falar sobre algo muito mais universal: o esforço de reconstruir a própria identidade depois de perceber que, em algum momento do caminho, ela ficou para trás. No fim, o maior rompimento não acontece entre duas pessoas, mas entre alguém e sua própria essência.

Sentir também é uma forma de seguir em frente

Apesar de mergulhar em temas como dependência emocional, solidão e perda de identidade, Não Há Nada Mais Honesto Que Um Sonho nunca transforma o sofrimento em espetáculo. Pelo contrário: o álbum entende a dor como parte inevitável da experiência humana, mas recusa a ideia de que ela precise definir o fim da história.

Essa percepção atravessou não apenas as composições de Jade, mas também a forma como Thiago e Pê conduziram a produção do disco.

Para eles, cada música precisava respeitar o momento emocional que representava. Não havia interesse em suavizar sentimentos ou antecipar uma superação que ainda não existia.

"A vida precisa ser sentida. A gente tem que sentir todos os sentimentos possíveis. Não adianta querer só ser feliz o tempo inteiro. Tem música para a fossa, para a autodestruição e para a recuperação."

Essa visão também explica por que o álbum soa tão humano.Em vez de buscar respostas prontas, ele convida o ouvinte a permanecer por alguns instantes dentro de cada emoção. Há espaço para a raiva, para a culpa, para o medo, para a saudade e, finalmente, para a esperança.

Essa evolução encontra seu ápice em "Mar de Copa", faixa que representa o encerramento simbólico da jornada vivida ao longo do disco.

"Mar de Copa foi a última música do disco. A gente percebeu que ela era necessária porque representava exatamente esse momento em que a personagem consegue voltar a amar e voltar a se amar." 

É um desfecho que não elimina as cicatrizes, mas mostra que elas deixam de ocupar o centro da história.

Mais do que um álbum, um reencontro

No fim, talvez seja justamente esse o maior mérito de Não Há Nada Mais Honesto Que Um Sonho. Em vez de oferecer respostas fáceis ou transformar sofrimento em espetáculo, Jade Baraldo constrói um disco que respeita o tempo das cicatrizes. Um álbum que entende que reconstrução não acontece de uma vez só — ela acontece faixa por faixa, lembrança por lembrança e escolha por escolha.

Mais do que contar a história de um relacionamento que terminou, o novo trabalho registra o momento em que uma artista decide voltar a ser protagonista da própria vida.

É aceitar que ele existe, compreender o que ele transformou e seguir em frente levando consigo apenas aquilo que ainda faz sentido.

Créditos - Capa do Album Jade Baraldo -  Não Há Nada Mais Honesto Que Um Sonho

Fotografia: Thiago Augusto Baptista

Direção: Juliana Colinas

Direção Criativa e Figurino: Gui Orland

Beauty: Teddy Zany

Produção: Gabriela Montandon e Samuel Ferreira de Souza Jr

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