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C6 no Rock encerra primeira edição com Marina Lima em alta e emocionante homenagem a Cazuza

Segundo dia do festival mergulhou novamente no rock brasileiro dos anos 1980, revisitou clássicos da Legião Urbana e transformou o Ibirapuera em uma grande celebração da obra de Cazuza

Por Laila Blask · 24 de ago. de 2026
C6 no Rock encerra primeira edição com Marina Lima em alta e emocionante homenagem a Cazuza
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Depois de uma estreia marcada pela celebração de Rita Lee, o C6 no Rock encerrou sua primeira edição neste domingo (23), no Parque Ibirapuera, em São Paulo, mantendo a mesma proposta que guiou todo o festival: olhar para o rock brasileiro dos anos 1980 não apenas como nostalgia, mas como uma obra que continua atravessando gerações.

Se no sábado o público se emocionou com o tributo “Meu Sonho É Ser Imortal”, dedicado a Rita Lee, o segundo dia encontrou em Cazuza seu grande personagem. Antes de chegar ao tributo que encerrou a noite, porém, o festival percorreu diferentes capítulos da música brasileira, com apresentações de Ira!, Blitz, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, além de uma das performances mais aguardadas do domingo: Marina Lima revisitando Fullgás.

O resultado foi um encerramento que combinou memória, celebração e, principalmente, uma enorme sensação de pertencimento. A Folha de S.Paulo estima que o festival tenha reunido cerca de 20 mil pessoas ao longo do fim de semana.

Ira! abre o domingo revisitando um clássico

A programação começou com o Ira!, responsável por revisitar Vivendo e Não Aprendendo, álbum lançado em 1986 e fundamental para compreender a consolidação do rock brasileiro naquela década.

A escolha reforçou uma das características mais interessantes do C6 no Rock: em vez de transformar os artistas em uma simples sequência de sucessos, o festival apostou na apresentação de discos que possuem identidade própria e que marcaram momentos específicos da música nacional.

Na sequência, a Blitz, com participação de Fernanda Abreu, trouxe a irreverência característica da banda para o palco. O repertório de As Aventuras da Blitz recuperou o espírito teatral, pop e bem-humorado que ajudou a banda a se tornar um dos fenômenos da música brasileira dos anos 1980.

A Legião Urbana volta ao palco do Ibirapuera

Um dos momentos mais aguardados da tarde ficou por conta de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, que revisitaram Dois, segundo álbum da Legião Urbana, acompanhados por André Frateschi nos vocais.

O disco, lançado originalmente em 1986, concentra algumas das músicas mais importantes da trajetória da banda. No palco, canções como “Tempo Perdido” ganharam novamente força diante de uma plateia que conhecia cada verso.

Mais do que reproduzir um álbum histórico, o encontro reforçou a permanência da obra da Legião. Quatro décadas depois, aquelas letras continuam sendo cantadas por pessoas que viveram seu lançamento e por gerações que chegaram à banda muito tempo depois.

Marina Lima faz de Fullgás um dos grandes momentos do festival

E então chegou Marina Lima.

A cantora foi responsável por um dos momentos mais especiais do segundo dia ao apresentar Fullgás, seu clássico álbum de 1984, ao lado de Lobão e Liminha.

A apresentação tinha um peso especial dentro da proposta do festival. Fullgás é um daqueles discos que não apenas pertencem aos anos 1980, mas ajudam a definir a sonoridade e a atmosfera cultural daquele período. A obra mistura pop, rock, eletrônica e sofisticação, características que fizeram de Marina uma artista singular dentro daquela geração.

Para a apresentação, a cantora fez questão de refazer todos os arranjos para que ficassem fiéis aos do disco original, preservando a sonoridade e a identidade do álbum lançado em 1984.

O grande hit “Fullgás”, naturalmente, foi um dos pontos altos da apresentação. A música, que atravessou décadas, ganhou no Ibirapuera uma nova dimensão ao ser apresentada dentro do contexto de um festival dedicado justamente à memória daquele período.

A participação de Lobão e Liminha também deu à apresentação uma dimensão histórica. Liminha, além de assumir a direção musical do tributo a Cazuza mais tarde, esteve diretamente ligado à produção musical de importantes trabalhos do rock brasileiro.

A apresentação ainda teve um momento particularmente emocionante quando Marina homenageou seu irmão, o poeta Antônio Cícero, cuja presença atravessa parte importante de sua trajetória artística. A Folha destacou o show de Marina entre os momentos marcantes do segundo dia.

E havia ainda uma curiosidade especial por trás de “Fullgás”: Marina já havia contado que “Billie Jean”, de Michael Jackson, serviu de inspiração para a criação do hit. A revelação ganhou destaque antes do festival e ajudou a colocar em perspectiva a mistura de referências que tornou a música tão singular.

Fotos por John Alves @ jhnlvs para Glumy.

Cazuza transforma o encerramento em catarse coletiva

Se Marina foi um dos grandes destaques musicais da tarde, o encerramento estava reservado para uma das figuras mais importantes — e ainda mais atuais — do rock brasileiro.

“Todo Amor Que Houver Nessa Vida” foi concebido especialmente para o C6 no Rock como uma celebração da obra de Cazuza, reunindo artistas de diferentes gerações para interpretar suas canções.

No palco estiveram Arnaldo Antunes, Frejat, Johnny Hooker, Léo Jaime, Leoni, Lobão e Maria Gadú, acompanhados por uma banda formada por João Barone, na bateria, Davi Moraes, na guitarra, Rodrigo Tavares, nos teclados, e Mauro Berman, no baixo. A direção musical ficou a cargo de Liminha, enquanto Rafael Dragaud assinou a direção artística.

A escolha dos intérpretes foi um dos grandes acertos do espetáculo. Em vez de buscar uma única voz para representar Cazuza, o tributo colocou diferentes personalidades diante de um repertório que continua carregado de urgência.

“Exagerado”, “O Tempo Não Para”, “Ideologia”, “Brasil”, “Codinome Beija-Flor” e “Todo Amor Que Houver Nessa Vida” fazem parte de uma obra que nunca foi apenas sobre romance ou juventude. Cazuza escrevia sobre desejo, solidão, política, liberdade, amizade, medo e sobre o próprio país — temas que continuam encontrando eco no Brasil atual.

E talvez seja justamente aí que o tributo tenha encontrado sua maior força.

Confira momentos desse espetaculo:

Cazuza continua falando com o presente

Quase quatro décadas depois do auge de sua carreira, Cazuza continua sendo um artista difícil de colocar no passado.

Sua trajetória foi curta, mas extremamente intensa. Primeiro à frente do Barão Vermelho, depois em uma carreira solo que rapidamente o transformou em um dos principais compositores e intérpretes de sua geração, Cazuza construiu uma obra marcada pela exposição emocional e pela coragem de falar sobre assuntos que ainda eram tratados como tabu.

O espetáculo do C6 no Rock aproveitou justamente essa característica.

Materiais do acervo pessoal do artista, incluindo manuscritos, poemas, anotações e desenhos, foram incorporados à concepção visual da apresentação, transformando o palco em uma espécie de extensão de seu universo criativo.

O resultado foi menos um tributo convencional e mais uma tentativa de colocar Cazuza novamente em diálogo com o público.

E funcionou.

A plateia cantou junto, transformando clássicos conhecidos há décadas em uma espécie de manifesto coletivo. A sensação era de que aquelas músicas não estavam sendo apenas lembradas: estavam sendo novamente descobertas.

Um festival que entendeu a força da memória

O C6 no Rock terminou seu primeiro ano com uma proposta bastante clara — e bem executada.

Ao longo de dois dias, o festival revisitou discos fundamentais, reuniu integrantes de bandas históricas, colocou artistas de diferentes gerações no mesmo palco e transformou as homenagens a Rita Lee e Cazuza em grandes momentos de sua programação.

O domingo foi especialmente simbólico porque conseguiu encerrar essa viagem pela década de 1980 sem transformar o passado em peça de museu.

Marina Lima mostrou que Fullgás continua pulsando. A Legião Urbana provou novamente a força de suas letras. E Cazuza encerrou a festa lembrando por que algumas obras simplesmente não envelhecem.

No fim, o C6 no Rock deixou uma mensagem simples: nostalgia pode até ser o ponto de partida, mas não precisa ser o destino.

Porque, quando as músicas continuam fazendo sentido, elas deixam de pertencer a uma época.

Elas continuam sendo nossas.

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