O Parque Ibirapuera, em São Paulo, foi tomado neste sábado (22) pela memória, pela nostalgia e, principalmente, pela força do rock brasileiro. Em sua primeira edição, o C6 no Rock apostou em uma proposta bastante definida: revisitar álbuns e artistas fundamentais para a construção da música nacional nos anos 1980, colocando no palco nomes que ajudaram a transformar aquela década em um dos períodos mais importantes da história do rock no país.

A estreia reuniu Plebe Rude, Paulo Ricardo, Titãs e Os Paralamas do Sucesso, com apresentações dedicadas a trabalhos emblemáticos de suas trajetórias. O encerramento, porém, ganhou um significado especial: o festival deixou de apenas revisitar a década para celebrar uma das figuras mais importantes de toda a música brasileira. Sob o comando de Beto Lee, filho de Rita Lee, o espetáculo “Meu Sonho É Ser Imortal” reuniu diferentes gerações de artistas para homenagear a cantora e compositora.
Uma viagem pelo rock brasileiro dos anos 1980
A programação começou à tarde com a Plebe Rude, que revisitou o álbum O Concreto Já Rachou. Na sequência, Paulo Ricardo levou ao palco o repertório de Rádio Pirata ao Vivo, além de sucessos de sua carreira e do RPM. Segundo a cobertura da Folha de S.Paulo, músicas como “Olhar 43” e “Rádio Pirata” estiveram entre os momentos de maior conexão com o público.
A proposta do festival de apresentar discos marcantes praticamente na íntegra ajudou a criar uma experiência diferente daquela encontrada em grandes festivais tradicionais. Em vez de uma sequência de hits escolhidos exclusivamente para agradar ao público, cada apresentação buscou recuperar a identidade de trabalhos que ajudaram a definir uma geração. A curadoria, assinada por Hermano Vianna, Leonardo Lichote e Marcus Preto, parte justamente dessa ideia de olhar para o rock dos anos 1980 pelas lentes do presente.
O clima de celebração ganhou ainda mais força com Os Paralamas do Sucesso, responsáveis por revisitar Selvagem?. Herbert Vianna e companhia combinaram faixas menos óbvias, como “Teerã” e “A Dama e o Vagabundo”, com clássicos que atravessaram gerações, entre eles “Alagados” e “Lanterna dos Afogados”. Em um dos momentos mais simbólicos da apresentação, Herbert pediu que o público acendesse as lanternas dos celulares, criando uma grande luz coletiva no Ibirapuera.
Antes da atração final, os Titãs colocaram no palco a intensidade de Cabeça Dinossauro, álbum que completa quatro décadas em 2026. A apresentação resgatou a atmosfera visceral do disco e teve em “Bichos Escrotos” um dos momentos destacados pela cobertura do primeiro dia.
Rita Lee ganha uma celebração à altura de seu legado
Se os primeiros shows fizeram do sábado uma grande viagem pelo rock brasileiro, foi a homenagem a Rita Lee que transformou a noite em uma celebração de legado.
Intitulado “Meu Sonho É Ser Imortal”, o tributo foi idealizado em torno da obra da cantora e teve Beto Lee à frente da apresentação. O músico não apenas assumiu o papel de conduzir a homenagem à mãe, como também ajudou a construir uma ponte entre diferentes gerações da música brasileira.
Ao lado dele, o palco recebeu Alice Caymmi, Baby do Brasil, Catto, Fernanda Abreu, Letrux, Marina Sena, Miranda Kassin e Sandra Sá. A variedade de vozes foi justamente um dos pontos fortes da proposta: em vez de tentar reproduzir Rita Lee, o espetáculo mostrou como suas músicas continuam capazes de ganhar novos significados quando interpretadas por artistas de diferentes trajetórias.
Confira momentos desse espetaculo |
A escolha do repertório também reforçou a dimensão da artista homenageada. Rita Lee foi muito além do rótulo de roqueira: sua carreira atravessou o rock, o pop, a psicodelia e a música brasileira, sempre acompanhada de uma personalidade artística que ajudou a romper padrões e ampliar os espaços ocupados pelas mulheres na música.
Por isso, o tributo funcionou menos como uma simples retrospectiva e mais como uma demonstração de permanência. As diferentes interpretações apresentadas no palco reforçaram justamente aquilo que o festival pretendia discutir desde o início: algumas obras permanecem relevantes porque continuam conversando com novas gerações.
O C6 no Rock conseguiu transformar a nostalgia em uma experiência coletiva, especialmente para um público que viveu os anos 1980, mas também para quem descobriu essas músicas posteriormente.
Nostalgia sem ficar presa ao passado
O primeiro dia do C6 no Rock mostrou que revisitar o passado não precisa significar simplesmente reproduzi-lo. Ao colocar artistas consagrados diante de uma plateia formada majoritariamente por pessoas que acompanharam aquela geração e, ao mesmo tempo, aproximar nomes de diferentes momentos da música brasileira, o festival criou um encontro entre memória e presente.
Essa é, inclusive, uma das principais forças da proposta. O C6 no Rock não se limita a apresentar grandes nomes do passado: ele procura mostrar por que aquelas músicas continuam importantes décadas depois de terem sido lançadas.
No sábado, isso ficou evidente em cada etapa da programação — da atitude política da Plebe Rude ao repertório do RPM revisitado por Paulo Ricardo, passando pela potência dos Titãs e pela emoção dos Paralamas. No fim, entretanto, foi Rita Lee quem sintetizou melhor o espírito da primeira noite.
Ao transformar “Meu Sonho É Ser Imortal” no grande encerramento do sábado, o festival encontrou uma maneira simbólica de reafirmar que Rita Lee permanece exatamente onde sempre esteve: no centro da música brasileira, influenciando artistas, atravessando gerações e mostrando que algumas canções simplesmente se recusam a envelhecer.
E, se o primeiro dia terminou olhando para o legado de Rita, o C6 no Rock guardou para o domingo outra grande celebração da história do rock nacional: Cazuza. A segunda noite seria dedicada ao espetáculo “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”, reunindo nomes como Arnaldo Antunes, Frejat, Maria Gadú, Lobão, Léo Jaime, Leoni e Johnny Hooker.
Confira fotos do primeiro dia de C6 no Rock pela lentes de John Alves @ jhnlvs para Glumy










