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Entre Linhas

Anitta | o Equilíbrio Entre Arte e Essência

Por Victor Cardoso · 01 de set. de 2026
Anitta | o Equilíbrio Entre Arte e Essência
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Poucos artistas conseguem chegar ao topo e, anos depois, ainda encontrar espaço para se reinventar. Com Anitta (33), essa reinvenção parece partir de um lugar diferente, mais íntimo e menos preocupado em atender às expectativas de quem acompanha sua carreira. Talvez nenhum projeto represente isso de maneira tão clara e pessoal quanto EQUILIBRIVM.

Em mais de uma década de carreira, Anitta já transitou por diversos estilos, idiomas e mercados, construindo uma trajetória marcada principalmente pelo funk e pelo pop. Em EQUILIBRIVM, porém, suas raízes culturais, musicais e espirituais assumem o centro da narrativa. Dividido em duas partes – lançadas em abril e julho de 2026 –, o trabalho reúne 32 faixas e mantém a linguagem que ajudou a transformar Anitta em um dos maiores nomes da música brasileira, agora a serviço de uma obra muito mais pessoal.

Entre espiritualidade, identidade e arte

Um dos aspectos mais marcantes de EQUILIBRIVM é a forma como a espiritualidade permeia a produção. As referências às religiões afro-brasileiras – especialmente ao candomblé, religião da cantora – aparecem de maneira natural, integradas às composições, aos arranjos, aos visuais e à construção estética da obra.

É uma escolha artística que exige coragem. Em um país onde a intolerância religiosa, especialmente contra religiões de matriz africana, ainda é uma realidade, colocar essas referências no centro de um trabalho dessa dimensão também significa enfrentar preconceitos que ainda atravessam a sociedade.

O mais interessante, porém, é que o projeto não tenta convencer ninguém. A espiritualidade não é apresentada como discurso ou imposição, mas como parte da identidade da artista. O convite é outro: compreender, sentir e experimentar. Mesmo para quem não compartilha da religião, as músicas encontram espaço para criar conexão, porque falam de pertencimento, ancestralidade, equilíbrio e autoconhecimento – temas que atravessam diferenças de raça, gênero, cultura e crença.

O alcance que Anitta conquistou é essencial para ampliar a discussão e ajudar a combater a intolerância e o racismo religioso. Ao ocupar espaços de grande visibilidade, inclusive em horário nobre da televisão brasileira, ela consegue mostrar que sua religião não é aquilo que durante tanto tempo foi pintado pelo preconceito. Em programas como Altas Horas, Mais Você, Fantástico e Conversa com Bial, na TV Globo, Anitta leva essa vivência para milhões de pessoas. Ela abriu caminho para si mesma e agora pode usar esse espaço para contar a própria história.

Imagem: Reprodução

Um projeto que também abre espaço para outras vozes

Outro mérito está na escolha de quem divide os holofotes com Anitta. Em vez de recorrer apenas aos nomes mais comerciais, EQUILIBRIVM reúne artistas de várias gerações e estilos, passando pelo samba, MPB, forró, reggae, rap, funk, pop, R&B e pela música de matriz afro-brasileira e indígena. O resultado aproxima referências consagradas da música brasileira de artistas que vêm ganhando espaço em novas cenas.

Maria Bethânia, Alceu Valença, Mart’nália e Alexandre Carlo são alguns dos nomes que levam ao projeto décadas de experiência. Na cena contemporânea, artistas como Marina Sena, Liniker, Papatinho, KING Saints e Ebony dividem espaço com grupos como Los Brasileiros e Ponto de Equilíbrio, além de nomes como Brô MC’s, Katú Mirim e Grupo Ofá, que ampliam a diversidade cultural e sonora da obra. E, embora Shakira apareça como a exceção internacional, depois de tantos anos de relação com o público brasileiro, fica difícil não a considerar brasileira de coração.

Essa escolha não serve apenas para ampliar o repertório, mas também para ampliar o alcance. Alguns desses artistas já possuíam trabalhos reconhecidos e públicos fiéis, mas passaram a ser descobertos por uma parcela muito maior do público de Anitta após as colaborações. Em uma produção dessa dimensão, essa visibilidade pode representar novos ouvintes, novos espaços e a oportunidade de levar cenas da música brasileira para além de seus círculos habituais.

Ao dividir o protagonismo, Anitta cria pontes entre públicos que talvez nunca se encontrassem. Mostra também que a música brasileira não precisa escolher entre tradição e novidade: todas essas vozes podem ocupar o mesmo espaço e, juntas, contar uma história muito maior.

Imagem: Reprodução

Uma experiência para além da música

EQUILIBRIVM vai além do que se escuta, construindo uma experiência que também passa pelo visual e pelo sensorial. Videoclipes, fotografias e materiais promocionais dialogam entre si, criando uma narrativa consistente do início ao fim. É uma atenção aos detalhes que os fãs já pediam há algum tempo e que finalmente aparece de forma completa nesse trabalho.

O projeto também não ficou restrito aos dois álbuns. Depois de anos elevando a régua com os Ensaios da Anitta, a EQUILIBRIVM Tour foi ainda mais longe apresentando um formato similar ao de um festival. A programação não se resumia ao show: havia meditação guiada, sessões de terapia, mapa astral, dança circular e outras atividades que faziam parte da chamada Vila EQUILIBRIVM.

A própria Anitta comentou durante os shows que o projeto encontrou resistência antes de chegar aos palcos. Segundo a cantora, nenhuma marca havia se disposto a patrociná-lo, até que a Natura decidiu encarar a ideia. A parceria também fez sentido pela proximidade entre o universo de EQUILIBRIVM e a identidade da Natura Ekos, uma conexão que já vinha sendo percebida pelos próprios fãs.

Mas construir uma experiência tão diferente também significava tomar decisões que fugiam do formato tradicional de um show. Algumas delas, inclusive, acabaram gerando discussões nas redes sociais. A venda de bebidas alcoólicas, por exemplo, não acontecia durante as atrações que antecediam o DJ e o show principal, sendo liberada apenas com o início das apresentações no palco. A informação acabou interpretada por algumas pessoas como uma proibição, e Anitta precisou vir a público explicar que não era esse o caso. A restrição fazia parte da experiência que a vila buscava oferecer.

Nossa equipe prestigiou a turnê em sua passagem por Niterói, no dia 22 de agosto, e pôde ver de perto como Anitta colocou a própria identidade em cada detalhe. Da seleção dos profissionais que ajudaram a compor cada uma das atrações da vila aos elementos da decoração, ficava a sensação de que nada havia sido pensado por acaso. Todos pareciam empenhados em fazer aquela experiência acontecer da melhor maneira possível.

À primeira vista, podia parecer uma proposta arriscada justamente por fugir do que se espera de uma turnê, principalmente de uma artista como Anitta, mas funcionava quando se entendia que a intenção não era apenas assistir: era sentir. Entre uma atividade e outra, havia espaço para desacelerar, experimentar algo novo e, sem dúvidas, sair dali levando alguma coisa consigo. Anitta não entregava ao público apenas um espetáculo pronto, mas criava um ambiente para que cada pessoa pudesse encontrar sua própria forma de vivê-lo.

O resultado também aparece na procura do público. Todas as datas anunciadas tiveram ingressos esgotados, e o interesse por novas apresentações continua mesmo após o encerramento da turnê, em Salvador, no dia 29 de agosto. Esse movimento mostra que existe uma curiosidade em torno do universo que Anitta criou para EQUILIBRIVM, e não apenas daquilo que acontece no palco.

Imagem: Reprodução

A liberdade de ser inteira

Durante muito tempo, Anitta precisou provar que era capaz de conquistar espaços cada vez maiores. E conseguiu. Tornou-se uma das artistas brasileiras de maior projeção internacional, levando sua música a diferentes países, idiomas e públicos.

Com EQUILIBRIVM, no entanto, o movimento é outro. Depois de conquistar o mundo, a artista escolhe voltar para dentro de si. Não para abandonar tudo o que construiu, pelo contrário: para abraçar tudo o que a fez chegar até aqui e revisitar suas próprias raízes, deixando que, desta vez, elas conduzam sua arte.

Não é apenas um equilíbrio entre Brasil e exterior, entre pop e tradição ou entre sucesso comercial e liberdade criativa. Existe também algo mais íntimo: o equilíbrio entre Larissa e Anitta. Ao contar a própria história através da música, torna-se palpável a sensação de cura que existe no processo de se tornar inteiro, tanto para ela quanto para quem se permite ouvir e compreender essa história.

Talvez seja justamente isso que torna EQUILIBRIVM tão especial. Depois de tantos anos, Anitta parece finalmente confortável em mostrar quem existe por trás da artista que o mundo aprendeu a amar, agora livre da pressão e da cobrança para corresponder às expectativas. É sobre se permitir viver e criar a partir desse lugar mais íntimo. Porque, no fim, seja no toque do tambor, no reggaeton ou na rebolada de bunda, há espaço para todas as versões de Anitta.

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