"Os Amantes é um filho de três." A definição é da própria Jade, que em 2019 juntou seu universo de tecnobrega, carimbó e synthpop experimental ao da dupla Strobo, de Léo Chermont e Arthur Kunz, para criar um projeto que unisse a força de suas identidades musicais. Desse encontro, em 2021, nasceu o álbum homônimo de estreia, e com ele o Amado, o personagem-vocalista que Jade veste para representar essas histórias. Agora, depois de um hiato de quase dois anos, o trio volta com Amar, AMOR!, um disco que, segundo eles, foi concebido sob o signo da fome e da urgência da paixão, em uma produção que durou poucos meses até o lançamento.
O palco desse lançamento não poderia ser mais simbólico: a comedoria do Sesc Pompeia, em São Paulo, conhecida por apresentar a nova cena da música brasileira por meio do projeto Prata da Casa. Em um show que apresentou o novo repertório para fãs e amigos, ficou nítido que o tempo só melhorou o entrosamento do trio, e o quanto eles se divertiram ali no palco.

Amar, AMOR! é uma viagem para além de Os Amantes. Se o disco de 2021 acompanhava o início e o fim de um amor, até o encontro do amor em si mesmo, o novo trabalho se debruça sobre a ardência e a loucura da paixão, e sobre o sentimento de se entregar à força de amar, mesmo quando o amor resta apenas enquanto lembrança.
Antes do show, nós da Glumy batemos um papo com os três sobre o novo disco, que já pode ser ouvido pelo aplicativo Samply e que deve chegar a todas as plataformas de streaming nas próximas semanas.

O primeiro disco passeia por várias camadas do amor — da paixão à desilusão, até o encontro do amor em si mesmo. Qual foi o ponto de partida de Amar, AMOR!? Que camadas do amor vocês ainda queriam explorar?
[Jade] A gente decidiu voltar. Às vezes você fica querendo só andar pra frente, mas é bom parar e pensar como era antes. Esse é um disco sobre o pathos da paixão, sobre a doença — tanto que a primeira música é "Acho que enlouqueci". É sobre recuperar uma energia que parecia perdida. Hoje todo mundo está meio opaco, meio desesperançoso, parece que todo mundo tomou antidepressivo e não joga mais pra fora do jeito que jogava quando era pré-adolescente e perdeu o primeiro amor e achava que o mundo tinha acabado. A gente voltou para esse lugar.
Em "Obsessão", a sensação é que a produção entra no ápice da loucura junto com a letra, Como foi construir esse caos sonoro?
[Arthur] Nós três somos produtores, mas a Jade ficou com o grosso do trabalho, fez várias bases pra gente tocar em cima. Tem música que eu compus do zero, fiz a melodia; e tem música em que eu só toquei bateria sobre uma base que ela já tinha feito — e aí a gente ia jogando a ideia de um pro outro.
[Jade] É um disco caótico, eu assumo. Normalmente eu produzo de uma forma muito minimalista: um lugar pra voz, um instrumento para base. Dessa vez, onde a gente achava que cabia, a gente foi tacando. Esse disco tem uma urgência de acontecer — uma fome, uma vontade.
[Arthur Kunz]: É verdade. O que é legal também é que a gente pulou um processo que geralmente acontece quando a gente faz um disco, que é ter um processo de fazer, da empolgação, e daí tem o momento de falar mal do trabalho para fazer um polimento... E que às vezes esse polimento acaba também tirando um pouco da verve, do feeling, né? Então a gente fez: “ó, quer saber? vai pro mundo.”
Quanto tempo demorou até que esse álbum fosse produzido?
[Léo Chermont]: Uns dois meses? A gente veio levantando coisas. Tem uma música que a gente já toca há três anos, que é Além de um Sonho Bom. A gente já tinha a master dela há um tempo, ela ia sair no primeiro disco, mas a gente achou que não funcionou e acabou guardando. Então eu acho que a gente sempre foi fazendo o disco, mas aí em algum momento a gente tinha que sentar e falar, vamos finalizar ele?
[Jade Melo]: Pois é, chega de ficar scrollando, bora sentar nesse computador
O próprio nome, Amar, AMOR!, soa como uma convocação a se entregar ao ato de amar. O filósofo Denis de Rougemont, em A História do Amor no Ocidente, fala em "amar o amor mais do que o objeto do amor" para descrever a paixão pelo próprio sentimento. Para vocês, ser amante é amar o amor mais do que o objeto do amor?
[Jade] É. E olha, eu estou num momento de muito esclarecimento na vida, então já vou começar a me emocionar. Hoje eu fiz análise, e a minha analista falou uma frase que me desabou inteira. Foi mais ou menos assim: Deus te dá coisas e pessoas pra você conhecer, aprender a amar, e depois tira pra que você continue amando sempre. Então, eu acho que é isso, é amar o amor acima de tudo, o próprio ato de amar.
No primeiro disco vocês citam vários territórios paraenses para materializar essa história. Se Amar, AMOR! fosse um lugar, qual seria?
[Leo] Eu pensei em Alter do Chão,
[Jade] Eu pensei em Alter do Chão também
[Leo] Naquela energia caótica, praia, pôr do sol, e ao mesmo tempo aquele caos de uma virada de Ano Novo.
[Jade] Mas, no fundo, é mais sobre o sentimento do que sobre o lugar em si. É aquela coisa de juntar um bando de estranhos num lugar e todo mundo criar um auê.
"Seja livre" fecha o disco retomando "Livre", do primeiro álbum, mas num outro lugar — lá era uma liberdade voltada pra dentro, de quem se protege; aqui é quase uma bênção oferecida ao outro. A faixa ainda traz de volta o "Batismo", que abria o disco de 2021. Esse fechamento de ciclo entre os dois álbuns foi intencional?
Os dois discos conversam muito. No primeiro, o "Livre" e o "Batismo" colocavam o passado sempre num lugar melhor, como se antes fosse melhor do que agora. Esse disco inverte isso: agora não é pior do que antes. O agora é que importa.
E pra finalizar, já que estamos falando em ciclos, se o amor é mesmo cíclico, o que fica de um amor para o outro?
[Jade] Acho que a experiência, o prazer de cada detalhe. Eu sofri algumas perdas esse ano, não de pessoas que se foram fisicamente, mas de amizades muito longas, de relacionamentos, e cheguei a ter muito medo de me envolver de novo por causa dessas experiências, Mas parece que dessa vez eu estava num lugar tão maduro que, mesmo me vendo triste, destruída, acabada, eu achei aquilo bonito. Eu pensei, que legal é poder sentir tudo isso e poder viver tanta coisa. Viver é isso, né? é a experiência, é a cagada, a parte boa, a foda.
Amar, AMOR! já está disponível para ouvir através da plataforma Samply, neste link, e em breve está disponível em todas as plataformas digitais
Os Amantes se apresentam no Festival Psica 2026, em Belém, nos dias 11, 12 e 13 de dezembro.

