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Violino, R&b e música eletrônica se unem em show solo de Sudan Archives no Brasil

Em sua primeira passagem pelo país, artista norte-americana levou ao palco do Cine Joia a fusão entre violino, R&B, hip-hop e música eletrônica, transformando a apresentação em uma experiência de pista e interação com o público

Por João Queiroz · 29 de set. de 2026
Violino, R&b e música eletrônica se unem em show solo de Sudan Archives no Brasil
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São Paulo recebeu, na noite desta segunda-feira (28), a primeira apresentação solo de Sudan Archives no Brasil. No palco do Cine Joia, na região da Liberdade, a artista norte-americana Brittney Denise Parks apresentou ao público paulistano a fase mais recente de sua carreira, marcada pela aproximação entre o violino e a música eletrônica de pista.

A apresentação integrou a programação paralela do Balaclava Fest e aconteceu apenas um dia depois da estreia de Sudan Archives no festival, realizado no Tokio Marine Hall. A passagem dupla pela capital paulista colocou a artista em dois contextos distintos: primeiro, diante do público de um festival; depois, em uma apresentação dedicada exclusivamente ao seu projeto, permitindo uma experiência mais próxima e concentrada de sua música.

Conhecida por transformar o violino em muito mais do que um instrumento melódico, Sudan Archives construiu uma linguagem própria ao combinar cordas processadas, loops, vocais e bases eletrônicas. Ao longo da carreira, sua música passou pelo R&B, soul, hip-hop, funk, pop experimental e diferentes vertentes da música eletrônica.

Essa identidade ganhou novas proporções com The BPM, terceiro álbum de estúdio da artista, lançado em outubro de 2025 pela Stones Throw Records. O trabalho aproxima Sudan Archives de referências como house e breakbeats e da cultura club de Detroit e Chicago, sem abandonar o violino como elemento central de sua produção.

Do violino à pista

Com início às 21h30, a apresentação no Cine Joia teve grande parte de seu repertório concentrado em The BPM, mas também revisitou diferentes momentos da discografia da artista. Para quem havia conhecido Sudan Archives principalmente por sua fase mais recente, a setlist funcionou também como uma espécie de porta de entrada para trabalhos anteriores.

Foi justamente nesse resgate que surgiram algumas das melhores surpresas da noite. “NBPQ (Topless)” e “Freakalizer”, por exemplo, eram músicas que eu ainda não conhecia e que ganharam outra dimensão ao vivo. Descobrir essas faixas durante o próprio show e sair da apresentação já interessado em revisitar sua discografia foi um dos pontos altos da experiência.

A relação entre instrumento e tecnologia também permanece como um dos elementos mais marcantes de sua performance. Em vez de ocupar apenas o papel tradicional associado às cordas, o violino aparece como parte da construção rítmica e eletrônica das músicas, dialogando com loops, bases e camadas de produção.

A fase de The BPM também trouxe a persona “Gadget Girl”, conceito que amplia a dimensão tecnológica e futurista desenvolvida pela artista em sua identidade visual. O projeto representa uma continuidade da pesquisa iniciada desde seus primeiros trabalhos, quando a música já combinava sua formação autodidata no violino com produção eletrônica.

Foto John Alves para Glumy

Quando o público vira parte do show

Se musicalmente Sudan Archives já possui uma identidade bastante particular, é na interação com o público que sua apresentação ganha uma dimensão ainda mais imprevisível.

Durante “A BUG'S LIFE”, a artista mantém um dos momentos mais divertidos de sua performance: convidar uma pessoa da plateia para subir ao palco e dançar com ela. No Cine Joia, a participação de @aishabikila se tornou um dos destaques da noite. Ao incorporar movimentos de voguing à performance, Aisha acrescentou uma nova camada à música e transformou a participação em um dos momentos visualmente mais marcantes do show.

Mas o ponto alto da noite para mim veio em “THE NATURE OF POWER”. Iniciando a música, Sudan pediu que o público abrisse espaço para que pudesse deixar o palco e performar no meio da plateia. O que poderia ser apenas uma interação pontual rapidamente se transformou em um dos momentos mais intensos da apresentação.

Caminhando entre o público, a artista dançava, chamava diferentes pessoas para acompanhá-la e construía a performance no meio de quem estava ali. Quando o refrão chegou, a energia do Cine Joia explodiu: cercada por fãs cantando e dançando a plenos pulmões, Sudan transformou a pista em uma extensão do palco.

O momento sintetizou uma das características mais interessantes de sua apresentação: não existe uma separação tão rígida entre artista e público. A plateia não é apenas espectadora, mas parte ativa da construção do espetáculo.

Um “Nosso Sonho” para encerrar a noite

Depois de encerrar a setlist com “THE BPM”, que novamente colocou o Cine Joia para dançar, Sudan Archives ainda tinha uma surpresa preparada exclusivamente para o show solo.

Empunhando seu violino, a artista começou a tocar os primeiros acordes de “Nosso Sonho”, clássico de Claudinho & Buchecha. A reação foi imediata. Em vez de apenas executar a música, Sudan convidou diversos fãs para subirem ao palco e dançarem ao seu lado.

A escolha de uma música brasileira já conhecida pelo público, somada ao violino e à espontaneidade da interação, criou um encerramento completamente diferente daquele apresentado no festival no dia anterior.

A cena também resumiu bem a proposta da noite: uma artista que consegue transitar entre o experimental e o popular sem abandonar sua identidade. O violino, instrumento que está no centro de sua trajetória, tornou-se novamente o elemento responsável por conectar mundos aparentemente distintos: da música eletrônica de pista ao funk brasileiro.

Foto John Alves para Glumy

Uma estreia que foi além da setlist

A passagem de Sudan Archives pelo Brasil acontece em um momento de transformação artística. Depois de Athena (2019) e Natural Brown Prom Queen (2022), The BPM levou sua pesquisa para uma direção mais diretamente ligada às pistas de dança, mantendo, entretanto, a combinação entre experimentação, voz e violino que se tornou sua assinatura.

No Cine Joia, essa transformação ficou evidente não apenas nas músicas apresentadas, mas na própria maneira como Sudan ocupa o palco. Entre faixas recentes, músicas antigas redescobertas, participações espontâneas, voguing, performances no meio da plateia e um inesperado “Nosso Sonho” no violino, a artista construiu uma apresentação que dificilmente poderia ser reduzida a uma simples reprodução de sua setlist.

Mais do que marcar sua estreia solo no país, o show mostrou ao público brasileiro uma artista interessada em romper as fronteiras entre concerto, performance e pista de dança. Sudan Archives usa o violino como ritmo, textura, melodia e ferramenta de produção, mas também como ponto de partida para criar uma experiência coletiva.

Ao deixar o Cine Joia depois de uma noite de dança, improviso e descobertas, fica a sensação de que assistir a Sudan Archives ao vivo é também uma oportunidade de conhecer novas camadas de sua música, inclusive aquelas que ainda não estavam no seu repertório.

Veja mais fotos dessa noite especial no nosso Instagram!


Fotos por John Alves, para o Glumy. 📸


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