É preciso coragem para abandonar uma carreira consolidada e começar tudo de novo. Ainda mais quando esse "começo" acontece depois de mais de uma década de estrada, milhões de reproduções nas plataformas digitais e uma identidade artística já reconhecida pelo público. Mas recomeçar nunca foi exatamente uma novidade para Luisa Nascim.
Natural de Natal (RN), a cantora passou quase dez anos à frente da banda Luisa e os Alquimistas, projeto que se tornou uma das principais referências da nova música potiguar ao misturar brega, reggae, dub, pop, música eletrônica e ritmos nordestinos. Nesse período, lançou discos importantes, percorreu festivais brasileiros e europeus e construiu uma trajetória marcada pela constante experimentação sonora.
Foi justamente essa inquietação que levou ao nascimento de LEOA. Em 2025, a artista encerrou um ciclo para iniciar outro. Voltou a morar em Natal, adotou um novo nome artístico e lançou Original Malokera, seu primeiro álbum solo. O disco de 15 faixas representa muito mais do que uma estreia: é uma declaração de identidade construída a partir das conexões entre o Nordeste brasileiro, o Caribe e a América Latina, reunindo referências de reggaeton, dembow, cumbia, dancehall, brega e sonoridades afro-diaspóricas.
Segundo ela, o primeiro ano do projeto foi marcado pela necessidade de fazer o público compreender esse novo momento, mas também pela satisfação de perceber que o nome LEOA passou a ser naturalmente reconhecido pelos fãs. Além da nova identidade, Original Malokera também funciona como um diário aberto.
Além de voltar a morar em Natal, LEOA fez questão de cercar o projeto de artistas potiguares e nordestinos. Entre os convidados aparecem nomes como Potyguara Bardo, Janvita, Amen Ore e João Victor, além de Gil Bala, da Paraíba, e Uana, de Pernambuco. O disco ainda conta com produção de Gabriel Souto e Walter Nazário e direção fotográfica assinada por Ian Rassari.
Esse compromisso com a cena local também aparece no Brega Dance Clube, coletivo idealizado pela artista que promove intercâmbios entre culturas e sonoridades das periferias do Norte e Nordeste.
"Eu quis focar em artistas do Rio Grande do Norte de uma maneira super intencional. Acho que a galera do RN está muito conectada e muito a fim de fazer o nosso som chegar para fora do estado."
Foi justamente esse espírito coletivo que tomou conta do palco do Sesc Bom Retiro, em São Paulo, no último dia 4 de julho. O espetáculo celebrou o primeiro ano de Original Malokera e contou com a participação especial de Potyguara Bardo, parceira de longa data da cantora. Juntas, apresentaram músicas como 084 e Vem Aki, releitura em ritmo de brega inspirada em Bellakeo. O show integrou a programação "Invento um Nordeste", do Sesc São Paulo. Veja alguns registros desse show:

Foto: Luis Felipe Moura
Antes de subir ao palco, a Glumy conversou com LEOA sobre o desafio de recomeçar a carreira, os medos que ficaram para trás, as inspirações por trás de Original Malokera e alguns spoilers do que o público pode esperar dos próximos passos da artista. Confira a entrevista na íntegra.
Glumy: Agora em maio, o Original Malokera completa um ano. O que mudou em você nesse primeiro ano de projeto?
LEOA: Foi um processo que exigiu muita resiliência. Começar do zero nas plataformas digitais depois de quase dez anos de carreira parece uma loucura, mas foi fundamental para mim. Esse renascimento, junto com o álbum, marca esse momento. É um disco grande, com quinze faixas, em que passo por diferentes ritmos e falo de muitos assuntos. Apesar das dificuldades para fazer o público entender essa nova fase, hoje sinto que as pessoas já estão muito mais habituadas a me chamar de LEOA e já cantam as músicas do disco. No show da Casa Natura, pouco mais de um mês depois do lançamento, já tinha muita gente cantando junto. Agora, depois de um ano, esse "nenenzinho" já está ficando durinho.
Glumy: Ao longo desses quase treze anos de carreira, você passou por vários ciclos e momentos, inclusive vivendo entre turnês no Circo. Você ainda tem medo de recomeçar? E o que fica de uma mudança para outra?
LEOA: Depois de me tornar LEOA, acho que não tenho mais medo de nada. Foi um ato de coragem do qual me orgulho muito. Também sinto que quem acompanha e gosta do meu trabalho ficou feliz com essa transformação.
Glumy: Como surgiu a ideia do Original Malokera?
LEOA: As músicas simplesmente foram surgindo. Tenho uma discografia extensa ao longo desses mais de dez anos de trajetória, mas esse foi o disco que nasceu com mais fluidez. Quando percebi, já tinha um monte de faixas e queria lançar praticamente todas. Acho que só uma ou duas ficaram de fora.
Também mergulhei em uma pesquisa sobre as semelhanças entre a música nordestina e a música caribenha e latina. Nossa cultura bebe muito dessa fonte, e eu queria apresentar isso de uma maneira contemporânea e muito própria. Além disso, é um disco extremamente íntimo. As letras falam de vivências muito pessoais. É quase um diário aberto.
Glumy: Ao longo do processo criativo, você reuniu vários artistas e profissionais potiguares no projeto. Qual foi a importância dessa escolha?
LEOA: Foi uma decisão totalmente intencional. Quis focar em artistas do Rio Grande do Norte nas participações. Curiosamente, depois do lançamento do álbum, voltei a morar em Natal, algo que nem estava nos meus planos. Hoje percebo que o próprio disco já iniciava esse processo de retomada das minhas raízes.
Tem a música "084", que também virou meu novo arroba, e a releitura de "Cidade do Sol", um clássico da banda Rastafeeling, muito importante para Natal. Tudo isso reforça essa conexão.
Também quis reunir novos nomes e parceiros de longa data, como a Potyguara, com quem adoro fazer música. Inclusive, vou participar da segunda parte do próximo álbum dela. Fica o spoiler. Além dela, tem Amenore, João Victor e vários outros artistas incríveis.
A cena do Rio Grande do Norte é muito conectada e tem muita vontade de levar sua música para além do estado. Existe uma potência enorme ali, e esse trabalho também nasceu para valorizar isso.
A única exceção entre os convidados nordestinos é a maravilhosa Urias. A música que gravamos é super poliglota, sensual, e tinha tudo a ver com ela.
Glumy: Falando sobre sua parceria com a Potyguara Bardo, como essa relação influenciou a sua musicalidade?
LEOA: Acho que uma parceria musical não pode existir apenas entre equipes. Para um feat funcionar, precisa haver algum entrosamento. Não necessariamente intimidade, mas uma conexão verdadeira.
Com a Potyguara é diferente. Ela é minha filha, eu sou mãe de drag. Tenho muito orgulho da trajetória dela. A gente se admira, se apoia muito e é muito amiga. Assim, tudo fica mais fácil.

Glumy: Quais outras Luísas ou LEOAs você ainda quer se tornar?
LEOA: Estou aqui fazendo esse show, mas minha cabeça já está no futuro. Vem uma nova era muito potente por aí, embora eu ainda não possa revelar muita coisa.
Acabei de aprovar um edital da PNAB para desenvolver parte desse projeto no Rio Grande do Norte. Vai ser um trabalho bem diferente. Continuo trazendo elementos que fazem parte da minha identidade, mas acredito que será o primeiro disco da minha carreira dedicado a uma única linguagem estética. Acho que esse spoiler eu posso dar.
Glumy: Para você, o que é ser uma Original Malokera?
LEOA: É não ter medo de arriscar. É ser uma mulher que não cabe em caixinhas. É falar sobre antiproibicionismo, ganja, amor, safadeza e, ao mesmo tempo, defender a originalidade. Ser Original Malokera é ser referência.
Glumy: O que a LEOA tem que as fakes não têm?
LEOA: Amor, muito elã. É um axé. Elas performam aquilo com que a LEOA já nasceu. Não tem jeito.
Confira o vídeo desta entrevista em nossas redes sociais: clique aqui.










Entrevista, reportagem, redação e fotografias: Luis Felipe Moura
