Glumy MusicDo mainstream ao undergroundDescobertasShows & FestivaisEntrevistasEntretenimentoLançamentosGlumy MusicDo mainstream ao undergroundDescobertasShows & FestivaisEntrevistasEntretenimentoLançamentosGlumy MusicDo mainstream ao undergroundDescobertasShows & FestivaisEntrevistasEntretenimentoLançamentos
Glumy
Entrevistas

Abram os caminhos: Mc celebra 7 anos de Rito de passá com um novo álbum no horizonte.

Após quase dois anos, a artista volta à cena com um espetáculo intimista, o relançamento de Rito de Passá em vinil branco, uma parceria histórica com Anitta e um novo álbum no horizonte. Mas a maior transformação não está no repertório. Está nela.

Por Luis Felipe Moura · 05 de ago. de 2026
Abram os caminhos: Mc celebra 7 anos de Rito de passá com um novo álbum no horizonte.
Ouvir esta matéria

Nos dias 28 e 29 de julho de 2026, MC Tha subiu ao palco da Casa de Francisca, no centro histórico de São Paulo, para o espetáculo Pra Cada Nós um Encanto — MC Tha e as Canções do Povo Brasileiro. Em formato de voz e piano, o show integrava a terceira edição do NRC Ao Vivo, projeto do Noize Record Club que já recebeu Jota.Pê e Otto em edições anteriores, e marcava a celebração dos sete anos de Rito de Passá. Mas, para MC Tha, o que aconteceu naquelas noites era algo difícil de encaixar numa única definição.

"Temos encarado como um show de transição", ela diz.

A frase parece simples mas não é. O espetáculo da Casa de Francisca não foi apenas a comemoração de um disco que o tempo não conseguiu apagar. Foi o primeiro passo visível de um ciclo que MC Tha vem construindo há três anos, em silêncio, dentro de estúdio e dentro de si mesma. Um ciclo que inclui um novo álbum em finalização, uma colaboração com Anitta, um vinil branco que carrega o simbolismo de folha em branco — e uma voz que, segundo ela própria, já não é mais a mesma de quando gravou Rito de Passá.

Durante conversa com a Glumy, realizada na noite dos shows, ela abre detalhes sobre sua transformação, crescimento, novos ciclos e o seu retorno à música. 

"Mudei meu jeito de cantar, meu jeito de compor. Amadureci muito. Também passei por muitos desafios que nem têm a ver com a arte ou com a carreira, mas com a Thais. Foram mudanças, crescimentos, lutos, vontade de vencer, vontade de viver, de permanecer nesse plano, de ser feliz. Tudo isso desemboca na MC Tha. Precisei me cuidar, me curar. Ainda estou nesse processo para chegar mais forte agora e conseguir passar essa mensagem com mais certeza e mais força."

Um álbum que o tempo só fez crescer

Lançado em 2019, Rito de Passá nasceu de uma série de descobertas simultâneas.

MC Tha havia saído de Cidade Tiradentes, bairro periférico da zona leste de São Paulo onde cresceu, e se mudado para o centro da cidade. Foi nesse deslocamento — geográfico, mas também identitário — que ela começou a refletir com mais profundidade sobre raça, feminismo e sua própria história. E foi ali também que se aproximou de um terreiro, experiência que mudaria de forma irreversível a direção de sua obra.

O álbum que nasceu desse período é, até hoje, uma das obras mais densas e originais da música brasileira contemporânea. Produzido por Tide DJ, Pedrowl, Ubunto, Malka e MU540, com co-produção de Jaloo e participação especial de Felipe Cordeiro, Rito de Passá atravessa dez faixas misturando funk, MPB, simbologia da umbanda e música pop sem pedir licença a nenhuma fronteira. 

Sete anos depois, o disco continua encontrando novos ouvintes.

Questionada sobre por que acredita que o trabalho resiste dessa forma, MC Tha fala sobre a relação que construiu com quem a acompanha.

"Eu acho que é porque eu sou uma artista que não tem máscaras. As pessoas olham pra mim e entendem que é possível. Elas torcem por mim, querem me ver, querem acompanhar o que eu faço. Acho que eu quebro essa barreira da diva, da artista que está sempre aparecendo como uma deusa intocável. Hoje mesmo um menino falou que outro dia me encontrou num brechó, cheia de sacolas. Eu acho que é essa identificação que aproxima — e foi um dos caminhos que fez com que Rito de Passá sobrevivesse até hoje."

O fechamento de um ciclo

Ao falar sobre os sete anos que separam Rito de Passá do que está por vir, MC Tha recorre a uma chave de leitura que transcende o calendário.

O número sete, nas religiões de matriz africana, carrega um peso simbólico específico. E ela percebe, olhando para trás, que tudo que aconteceu nesse período — a redução da agenda de shows, o processo terapêutico, a produção do novo álbum que se arrasta há três anos sem data — não foi acidente nem hiato. Foi uma maturação.

"Parece que Rito de passá atingiu a maturidade de concluir um ciclo. O número sete é muito importante para as religiões de matrizes africanas e acho que não é à toa que tudo tenha acontecido justamente agora. Nunca foi um plano pensar: 'Quando o álbum completar sete anos, eu volto aos palcos e lanço um disco novo'. Isso não existia. Mas, quando Rito de passá fez sete anos, parecia que tinha uma energia diferente no ar. Veio o convite da Noize para reprensar o vinil, o convite para o show, ao mesmo tempo o feat com a Anitta... E eu pensei: o universo está querendo que eu volte."

Ela também revela que o próximo ano guarda mais uma camada desse mesmo simbolismo: em 2027, ela completa sete anos de sua feitura no terreiro. A janela que se abre agora tem mais de um lado.

O terreiro como linguagem — e como causa

Desde Rito de Passá, MC Tha construiu uma obra profundamente conectada à espiritualidade de matriz africana. Mas ao longo da conversa, fica evidente que essa relação nunca foi estratégia de posicionamento. Foi, antes de tudo, recusa de esconder quem ela é.

"Quando eu entrei no terreiro, eu pensei que eu não queria me esconder, não queria ter que ficar fingindo que eu não era de terreiro ou falando que eu era espírita quando alguém perguntasse minha religião. Então eu trouxe isso pra minha música também, pra minha estética. Se eu sou uma artista que falo da minha vida, do meu cotidiano, o terreiro faz parte disso. E naquela época eu já observava que a umbanda, o candomblé, as religiões de matriz africana iam ter muita aderência do público mais jovem. Eu acho que eu consegui prever esse movimento — de que na música contemporânea pop precisava encontrar um jeito de falar disso também."

Mas ela é direta ao apontar os limites do que aconteceu desde então. Quando o diálogo sobre ancestralidade e espiritualidade começou a ocupar espaço no pop brasileiro, o mercado se relacionou com ele de uma forma que ela observa com desconforto.

"O mercado fala: 'A gente acha lindo, mas não vamos tão fundo assim. Falar de intolerância religiosa, não. Falar de números, não. Falar de terreiro sendo incendiado, não.' No fim, o que acaba se sobressaindo é só a estética, e não as problemáticas que essas comunidades enfrentam. Não é porque a MC Tha está trazendo esse debate que está tudo resolvido, que não existe mais terreiro sendo depredado ou perdendo seu território. Por trás dessa estética existem comunidades que precisam ser representadas — e essa é uma causa que precisa ser tratada com muito respeito, para que ela não seja esvaziada."

Rito de passá em vinil

Quando o Noize Record Club anunciou o relançamento de Rito de Passá no formato Reprensagens NRC — iniciativa dedicada a títulos fundamentais da música brasileira —, a novidade não foi apenas o retorno do álbum ao formato físico. Foi também a escolha de cor: diferente do vinil vermelho translúcido da edição original, a nova prensagem chega em branco.

A decisão foi tomada em conjunto com a Noize, e MC Tha explica o raciocínio com uma imagem que sintetiza muito do que ela carrega nesse momento.

"É uma cor que tem a ver com esse momento. Ao mesmo tempo que é zerar essa fase, é também começar uma coisa nova. Quase que uma mensagem de bandeira branca, de folha em branco pra reescrever uma nova coisa a partir de agora."

E ao falar sobre o que o vinil, como formato, faz com esse álbum em particular, ela traça a arquitetura emocional de Rito de Passá de uma forma que nenhuma análise externa conseguiria:

Ele conta a história de uma transição. Quando você escuta Rito de passá no vinil, consegue absorver melhor todas as nuances desse percurso. O álbum começa com uma pessoa tentando se fortalecer, ela ganha autoestima, depois cai, mergulha no oceano, vai resgatando essa força aos poucos e termina em 'Comigo Ninguém Pode', com a autoestima lá em cima. Acho que quem escuta o disco no vinil consegue captar essa narrativa de um jeito muito mais completo."

Lutos que a obrigaram a parar

Entre os momentos mais densos da conversa, MC Tha fala sobre as perdas que atravessaram os últimos anos — e sobre como elas determinaram o ritmo de tudo que veio depois.

Ela perdeu duas avós durante o período. A segunda perda reacendeu um luto que ela ainda carregava do irmão. E foi esse acúmulo que tornou impossível apressar o processo do novo álbum.

"Perdi uma avó na pandemia. Depois, passou um tempinho, perdi minha outra avó. E com essas perdas, reacendeu um luto que eu tinha do meu irmão. Então eu tive que olhar pra isso, porque é um álbum que eu falo muito, trago muita narrativa da minha história. E não dá pra eu querer contar a minha história sendo que eu também não tô bem resolvida com ela. É um álbum que tem uma carga tão bonita, uma evolução tão bonita minha enquanto artista e enquanto Thais, CPF, que foram várias coisas que as pessoas nem imaginam — enquanto tava produzindo esse álbum, aconteceram muitas coisas."

É impossível ouvir esse relato sem reler Rito de Passá sob outra perspectiva. As músicas continuam as mesmas. Quem mudou foi a artista. E, consequentemente, mudou também a maneira como ela própria se relaciona com aquilo que escreveu anos atrás.

Crescer também é trocar de vaso

Em determinado momento da conversa, MC Tha recorre a uma imagem simples para explicar o que aconteceu nos últimos sete anos — e por que o tempo que pareceu ausência foi, na verdade, construção.

"Às vezes não é ninguém que tá atrapalhando a gente. E não que eu esteja me atrapalhando, mas às vezes é a gente que precisa crescer pra caber naquele vaso, trocar de vaso. E pra esse álbum novo, eu precisei me moldar pra eu caber nesse vaso confortável, pra que eu pudesse crescer lá também, florescer lá também."

É a melhor síntese possível de tudo que aconteceu. Não foi o vaso que ficou pequeno. Foi ela que cresceu.

A parceria com Anitta em EQUILIBRIVM II

A participação de MC Tha em Sem Pressa, faixa do EQUILIBRIVM II de Anitta — com base rítmica no Ijexá —, não começou em nenhuma reunião de gravadora. Começou nas redes sociais, com fãs que apresentaram Rito de Passá à cantora e passaram a defender publicamente uma colaboração entre as duas.

Quando o convite chegou, MC Tha conta que não foi exatamente uma surpresa.

"Foi muito especial. E eu acho que mais especial ainda porque foi uma comoção do povo pedindo, da galera, apresentando o meu trabalho pra ela — e generoso da parte dela de conseguir também me enxergar parte do processo dela. A parte ali que eu começo cantando foi toda eu que escrevi: a letra e a melodia. E a música inteira tem compositores incríveis também somando. Foi um processo muito... que eu me fiquei muito à vontade. E o lugar de destaque também que eu fui colocada foi muito bonito da parte dela."

A colaboração chega num momento em que Anitta constrói, no projeto EQUILIBRIVM, um disco assumidamente centrado em espiritualidade, ancestralidade e brasilidade — os mesmos eixos que MC Tha explorou muito antes que esses temas se tornassem parte de um projeto pop de alcance massivo. A presença dela ao lado de Maria Bethânia, Alceu Valença e Mart'nália num mesmo álbum não é apenas uma colaboração pontual. É um reconhecimento de trajetória.

Novos horizontes em sua carreira

O novo álbum de MC Tha está em produção há três anos. Ainda não tem data de lançamento. Mas, ao descrevê-lo, ela abandona a linguagem de divulgação e fala com a mesma franqueza de quem acabou de sair do palco.

"Se Rito de Passar as pessoas entendem como um álbum de fortalecimento, de paz, de movimento, eu acho que esse próximo álbum vem com isso numa carga diferente, mais aprofundada. Eu acho que ele é muito inspirador. É um álbum de cura, um álbum pra gente ter ferramentas pra se curar, pra continuar com a nossa chama da esperança acesa."

O show da Casa de Francisca não foi o fim de nada. Foi o primeiro ensaio visível de quem MC Tha está se tornando.

E se Rito de Passá levou sete anos para revelar toda a sua profundidade, há razões para acreditar que o que vem a seguir já carrega dentro de si o mesmo tipo de verdade que resiste ao tempo.

"Vai ter novo álbum, sim", ela confirma, com uma risada.
E quem conhece Rito de Passá sabe o que isso significa.

NRCRP #011 - RITO DE PASSÁ
MC THA - COMPRE AQUI

NRC RP #011 MC THA - RITO DE PASSÁ

Créditos imagem de capa: Vi Santana / (@saantana.vi)

Compartilhar
WhatsAppTwitterFacebook
Leia também

Relacionadas